Para Jung, as relações humanas ocorrem através de Identificação/Projeção – Eu e o Não-Eu – Eu e o Outro.
Como já foi dito, Identificação é tudo aquilo que se refere à noção do Eu. Enquanto na Projeção estão todas as qualidades (positivas e negativas) avessas à noção do Eu.
Existiriam dois tipos de Projeções: a Projeção Positiva e a Projeção Negativa.
Na Projeção Positiva percebemos que o Eu projeta no Outro partes do seu Eu, de sua Sombra e de sua Anima ou do seu Animus, dependendo se for homem ou mulher. A projeção de partes do Eu proporciona o sentimento de afinidade – aquilo que eles têm em comum. A projeção das partes da Sombra leva o Eu a ver as diferenças que há entre eles, as arestas que terão que aparar, as incompatibilidades... e, por fim, a projeção de parte de sua Anima ou de seu Animus, reconhece no Outro sua contraparte sexual.
Na relação onde ocorre a Projeção Positiva busca-se a complementação, ou seja: completar o que temos a ilusão de não ter. É através da Projeção Positiva que admiramos, respeitamos, amamos e/ou nos apaixonamos por alguém. É a partir deste tipo de projeção que acontece desde a simpatia leve até a paixão avassaladora; tudo vai depender do grau e das partes projetadas.
Então, quando um homem busca uma mulher, ele, na verdade, busca sua Anima (sua “mulher” interna) e que quando uma mulher busca um homem, ela, realmente, procura seu Ânimus (seu “Homem” interno).
Quando uma mulher se apaixona por um homem, ele terá algumas características determinantes de seu Animus, se essas características forem essenciais para ela, (no seu entendimento do que é ser um homem), ela entenderá que encontrou “o homem de sua vida”. O mesmo acontecerá com um homem quando se apaixona por uma mulher.
Na Projeção Negativa é o caso clássico da antipatia, onde o Eu projeta no Outro, apenas a parte negativa de sua Sombra e de sua Anima ou de seu Animus. Quando olhamos para alguém e falamos: “Nada a ver!!” Não conseguimos sentir haver a menor possibilidade de nos relacionar com aquela pessoa, pois não conseguimos ver nem um tipo de afinidade, vendo às vezes, muito pelo contrário, tipos de pessoas absolutamente diferentes, que acreditam em coisas diferentes e vivem estilos de vida totalmente diferentes.
A Projeção Negativa também pode ocorrer apenas depois que passa a “febre” da paixão, onde só ocorre única e exclusivamente a Projeção Positiva, com alto índice da projeção das partes positivas do Eu e da Anima, ou do Animus, e onde a projeção da Sombra contém, predominantemente, elementos e qualidades que admiramos, apesar de acreditar não tê-los (o Outro tem!). Então, quando passa a “febre” da paixão (produzida pela Projeção Positiva), surge, imediatamente, a Projeção Negativa (como se fosse uma ressaca), com a mesmo rapidez com que aconteceu a primeira.
Precisamos nos dar conta de que, no relacionamento humano, a soma do Eu + Outro é igual a Nós. Somos Um Indivíduo que num relacionamento se soma à mais Um Indivíduo obtendo o total de Dois Indivíduos se relacionando. Não somos metade de um. Num relacionamento somos uma somatória que tem como resultado, no mínimo, dois. (Afinal, levamos conosco aquele “pacote” completo de Eu, Sombra e Anima/Animus – e o Outro, idem!). E, portanto, isto exige-nos – a ambos – capacidade de adaptação, de fazer concessão e grande dose do “quesito” doação.
Doar? Mas, doar o quê? AMOR! Jung já não nos disse que temos tudo dentro de nós?
O Mito do Andrógino*, que Platão nos apresenta, demonstra que a verdadeira carência que temos na vida é do ‘Outro’ na nossa vida, que se deu através daquele corte divino.
Jung nos demonstra através de sua teoria que essa sensação de falta, que vivemos, na verdade, é a falta das qualidades inconscientes, e que temos dentro de nós – suprimidas e reprimidas no desenvolvimento da consciência/inconsciência – corte, divino e necessário, para a formação da Individualidade e da Personalidade (reforçada e estimulada pela educação, por nossos pais e educadores).
Até agora não se falou daquele “detalhe” tão perseguido na vida: o Amor; a necessidade de ter amor através da relação... a necessidade de ser amado por alguém.
O que é o Amor? O que significa o Amor para mim? Como entendo que tenho o Amor em minha vida? Como decodifico o Amor nas situações?
Todos temos uma idéia abstrata e, muitas vezes, difusa do que é o Amor, mas poucos conseguimos identificar quando o temos em nossa vida.
Jung diz que onde temos Amor, não temos Poder, e, onde temos Poder, não temos Amor.Um relacionamento torna-se de ALMA quando há Amor e generosidade como ingredientes na sua base e abrimos mão do Poder de modificar o Outro para que se adeqüe às minhas necessidades e ao meu Eu. O grande ingrediente capaz de facilitar a adaptação e as concessões tão necessárias às relações é o AMOR.
É o AMOR que nos ajuda a proporcionar e/ou recuperar o equilíbrio nas relações, seja Eu comigo mesmo ou Eu com o Outro.
É o AMOR que pode nos dar consciência de que não encontraremos alguém “pronto” para que possamos nos relacionar, mesmo que seja nossa “Alma Gêmea” – não o encontraremos “pronto”, pois, segundo Jung, todo “encontro” é transformador. Transformamos e somos transformados em toda e qualquer relação e situação de vida em que estamos envolvidos.
O AMOR deve ser o recheio deste sanduíche que se chama relacionamento amoroso – como o nome já diz: é um relacionamento de AMOR.
E, quando, verdadeiramente, estabelecemos uma relação amorosa, temos a sensibilidade para perceber o Outro como distinto e diferente do meu Eu; não buscando no Outro os suprimentos que nós mesmos devemos nos dar.
Quando, verdadeiramente, estabelecemos uma relação amorosa, estabelecemos uma relação de doação e de troca: Eu dou o Meu AMOR e o Outro me dá o Seu AMOR. Não há medições nem competições de quem dá mais, simplesmente, trocamos... simplesmente, aceita-se o que o outro tem para nos dar e como ele o pode!
A nossa Alma Gêmea é aquela pessoa com quem estabelecemos uma relação de respeito, cumplicidade e real intimidade, cultivada com Amor.
Eu o(a) respeito e o(a) aceito como ele(a) é, “apesar” de ser diferente do meu Eu.Somos cúmplices, isto é, acreditamos e apostamos um no outro e na relação que temos. “Comungamos” de sonhos e projetos comuns para a nossa vida em comum, sem perder de vista nossos sonhos e projetos individuais.
Cultivamos real intimidade, sem invasão do espaço individual de cada um. Não impomos nossa presença, nem nossas “verdades”. Compartilhamos a presença um do outro em nossas respectivas vidas. Apresentamos nossas crenças, sentimentos e verdades que são acolhidas pelo Outro e vice-versa.
E... deixamos o tempo fazer o resto e “modelar” esta relação.Maria Aparecida Diniz Bressani é psicóloga e psicoterapeuta Junguiana, especializada em atendimento individual de jovens e adultos, em seu consultório em São Paulo.
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